segunda-feira, 24 de outubro de 2022

COMENTÁRIO 71 (Artigo 71 da Lei 14.133/21)

 

COMENTÁRIO 71 (Artigo 71 da Lei 14.133/21)

Lei Comentada

LEI Nº 14.133, DE 1º DE ABRIL DE 2021

Lei de Licitações e Contratos Administrativos

CAPÍTULO VII

DO ENCERRAMENTO DA LICITAÇÃO

Art. 71. Encerradas as fases de julgamento e habilitação, e exauridos os recursos administrativos, o processo licitatório será encaminhado à autoridade superior, que poderá:

I - determinar o retorno dos autos para saneamento de irregularidades;

II - revogar a licitação por motivo de conveniência e oportunidade;

III - proceder à anulação da licitação, de ofício ou mediante provocação de terceiros, sempre que presente ilegalidade insanável;

IV - adjudicar o objeto e homologar a licitação.

§ 1º Ao pronunciar a nulidade, a autoridade indicará expressamente os atos com vícios insanáveis, tornando sem efeito todos os subsequentes que deles dependam, e dará ensejo à apuração de responsabilidade de quem lhes tenha dado causa.

§ 2º O motivo determinante para a revogação do processo licitatório deverá ser resultante de fato superveniente devidamente comprovado.

§ 3º Nos casos de anulação e revogação, deverá ser assegurada a prévia manifestação dos interessados.

§ 4º O disposto neste artigo será aplicado, no que couber, à contratação direta e aos procedimentos auxiliares da licitação.

Comentários:

O Administrador público ao constatar alguma irregularidade tem o dever de saná-la. É o poder de autotutela (Art. 53 da Lei 9.784/99) que autoriza a anulação de atos ilegais INSUSCETÍVEIS DE APROVEITAMENTO e a revogação dos atos inoportuno ou inconveniente.

Destaca-se que a revogação do processo licitatório deverá ser resultante de fato superveniente devidamente comprovado. Assim, a autoridade superior, conforme inciso I, pode retornar o processo para o pregoeiro, agente de contratação ou comissão sanarem possíveis irregularidades.

Pode a autoridade REVOGAR uma licitação por motivo de conveniência ou oportunidade ou ANULAR um processo licitatório quando a ilegalidade for INSANÁVEL.

Deve-se atentar para o fato de que a autoridade deve indicar expressamente os atos com vícios insanáveis, tornando sem efeito todos os atos subsequentes que deles dependam.

Em todo caso, anulando ou revogando, deverá ser assegurada a manifestação PRÉVIA dos interessados, ou seja, a Administração deve comunicar aos licitantes a intenção de revogação e oferecer o direito ao contraditório em prazo razoável.

O inciso IV do artigo 3º da Lei 10.520/02 atribuía a Adjudicação do objeto da licitação ao pregoeiro. Somente no caso de ter havido recurso, conforme se depreende do inciso XXI do artigo 4º da Lei 10.520/02, à autoridade superior ao pregoeiro caberia decidir esse recurso e adjudicar o objeto ao licitante vencedor. Agora, com a Lei 14.133/2021, o inciso IV do artigo 71 da Nova Lei retirou do pregoeiro esse ato de ADJUDICAR.

O disposto nesse artigo 71 será aplicado, no que couber, às dispensas de licitação, às inexigibilidades e aos procedimentos auxiliares da licitação.

JURISPRUDÊNCIA DO TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO

 

É irregular a ausência de concessão aos licitantes do direito de recorrer em face de decisão de anulação da licitação, por afronta ao art. 71, § 3º, c/c art. 165, inciso I, alínea d, da Lei 14.133/2021. Ainda que legítima a anulação do certame, tal circunstância não afasta o dever de observância das garantias procedimentais dos licitantes, em especial o direito ao contraditório recursal.

Representação formulada ao TCU apontou possíveis irregularidades na Concorrência Eletrônica 1/2026, realizada pela Prefeitura Municipal de Piritiba/BA com vistas à construção de unidades habitacionais do programa “Minha Casa Minha Vida (MCMV) sub-50” no aludido município. A licitação fora regida pela Lei 14.133/2021 (nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos), tendo sido utilizada a plataforma eletrônica “BLL - Bolsa de Licitações e Leilões (www.bll.org.br)”. A empresa representante sustentou, entre outras alegações, que o órgão municipal promovera a anulação integral da Concorrência Eletrônica 1/2026 de forma ilegal, desproporcional e em desacordo com a Lei 14.133/2021, isso porque a decisão anulatória fundamentara-se na existência de “vício estrutural no Termo de Referência relacionado à indicação de parcelas de maior relevância técnica sem correlação com o objeto licitado”, qualificando-o como motivo suficiente para invalidar todo o certame. Nesse contexto, argumentou que o “suposto defeito” estaria restrito aos critérios de habilitação técnica, não comprometendo, pois, a fase competitiva já concluída, da qual participaram 38 licitantes, sagrando-se vencedora a proposta de R$ 2.041.669,44, aproximadamente R$ 688 mil inferior ao valor estimado de R$ 2.729.504,60. Ademais, defendeu que a referida decisão afrontara o art. 71, § 1º, da Lei 14.133/2021, por deixar de preservar os atos válidos e independentes do alegado vício, bem como o art. 67, § 1º, da mencionada lei, ao atribuir “caráter insanável” a situação que não teria acarretado restrição efetiva à competitividade. Outrossim, ela afirmou que a Administração municipal deixara de avaliar alternativas menos gravosas, como “diligências, saneamento ou correções prospectivas”, sem apresentar “motivação consequencialista” compatível com as exigências do art. 20 da Lindb, limitando-se a adotar a providência “mais severa disponível”. Por fim, a autora da representação indicou vício procedimental autônomo decorrente da ausência de “manifestação prévia dos interessados” e da supressão do prazo recursal previsto no art. 165, inciso I, alínea d, da Lei 14.133/2021, já que o sistema teria migrado diretamente para os eventos “em adjudicação” e “anulado”, impedindo assim a impugnação do ato anulatório pela licitante classificada em primeiro lugar. Ela invocou para tanto, a título de fundamentação legal, o “art. 71, inciso III, § 1º e § 3º, c/c art. 165, inciso I, alínea ‘d’, da Lei 14.133/2021”. Em sua instrução, a unidade técnica discorreu, primeiramente, sobre o conteúdo dos dispositivos legais acima mencionados, e o fez da seguinte forma: “Nos termos do art. 71 da Lei 14.133/2021, encerradas as fases de julgamento e habilitação e exauridos os recursos administrativos, o processo licitatório será encaminhado à autoridade superior. Entre as providências que poderão ser adotadas, o inciso III do referido artigo prevê a anulação da licitação, de ofício ou mediante provocação de terceiros, sempre que for constatada ilegalidade insanável. Nesse sentido, o § 1º do mesmo artigo explicita que, ao declarar a nulidade do procedimento, a autoridade competente deverá indicar expressamente os atos que contenham vícios insanáveis, tornando sem efeito todos os atos subsequentes que deles dependam. Além disso, o § 3º do art. 71 da Lei 14.133/2021 determina que, tanto nos casos de anulação quanto de revogação da licitação, deve ser assegurada a prévia manifestação dos interessados antes da adoção da medida. Por sua vez, o art. 165 prevê os meios de impugnação dos atos praticados pela Administração Pública no âmbito das licitações e contratos. Nos termos do inciso I, alínea ‘d’, desse artigo, cabe recurso administrativo, no prazo de três dias úteis, contado da data da intimação ou da lavratura da ata, contra a decisão que determinar a anulação ou a revogação da licitação. Dessa forma, a própria legislação assegura aos interessados a possibilidade de contestar administrativamente tais decisões.”. Na sequência, ao analisar a decisão de anulação da Concorrência Eletrônica 1/2026, a unidade instrutora destacou que, além de o órgão municipal haver identificado que a empresa representante, até então vencedora do certame, “não teria apresentado a Certidão de Acervo Operacional”, ele também apontara, no Termo de Referência, a presença de “itens de maior relevância técnica para fins de comprovação da qualificação técnica que não guardavam qualquer correlação com o objeto efetivamente licitado”, comprometendo assim a regularidade da fase de habilitação, a competitividade do certame e a observância dos princípios da isonomia e do julgamento objetivo. Nesse sentido, diferentemente do entendimento da autora da representação, que reputara o vício como sanável, a unidade técnica concluiu que se tratava, na verdade, de vício insanável, e que isso decorreria do fato de que a alteração na exigência de documentos de habilitação “impacta substancialmente na competitividade do certame, considerando que, no caso concreto, pode ter afastado potenciais interessados em participar dessa licitação”. Além disso, uma vez que a licitação já se encontrava na fase de recursos, a anulação do certame “era a medida adequada a ser adotada, visto que já tinha havido a apresentação de propostas e disputa entre as empresas”. Por outro lado, prosseguiu a unidade instrutora, o órgão municipal deveria ter observado o disposto no art. 71, § 3º, c/c o art. 165, inciso I, alínea d, da Lei 14.133/2021, assegurando aos licitantes o direito de interpor recurso contra a decisão anulatória do certame. Contudo, “infere-se que tal procedimento não foi adotado”, haja vista a ausência de encaminhamento específico na própria decisão administrativa e a ausência de menção na “ata da sessão realizada”. Levando em conta que a justificativa adotada para a anulação fora adequada e que “nova licitação para o mesmo objeto ocorreu em 26/5/2026, tendo ocorrida a análise dos documentos de habilitação”, a unidade técnica considerou suficiente a “emissão de ciência” à Prefeitura Municipal de Piritiba/BA acerca da irregularidade identificada, qual seja, a “ausência de concessão aos licitantes do direito de recurso no prazo de três dias úteis em face da anulação da Concorrência Eletrônica 1/2026”. Ao anuir à manifestação da unidade instrutora, o relator reforçou que a anulação do certame fora “decretada em sede de recursos administrativos interpostos por quatro licitantes contra a habilitação da Representante”, tendo em vista a “inadequada definição das parcelas de maior relevância técnica” para fixação dos pressupostos de qualificação técnica, exigindo-se requisitos que “não guardam correlação com o objeto efetivamente licitado”, a saber: “cobertura metálica em galvalume; divisória em granito; piso vinílico; forro em drywall; instalações de gás combustível; sistema de combate a incêndio; e sistema de proteção contra descargas atmosféricas”. Ele assinalou que a empresa representante entendera, todavia, que tal vício estaria restrito aos critérios de habilitação técnica e, portanto, não comprometeria a fase competitiva, já concluída. Ademais, continuou o relator, a autora da representação suscitara a existência de vício procedimental decorrente da ausência de manifestação prévia dos interessados e da supressão do prazo recursal previsto no art. 165, inciso I, alínea d, da Lei 14.133/2021. Para ele, diferentemente do entendimento da empresa representante, seria, de fato, insanável o vício nos requisitos qualificatórios. Segundo o relator, a despeito de a verificação dos requisitos habilitatórios ocorrer, em regra, após a conclusão da fase de “julgamento de propostas/lances”, alterações nas exigências de habilitação “podem impactar substancialmente na competitividade do certame, tendo o condão de afastar potenciais interessados em participar da licitação”. Destarte, considerando que a etapa competitiva já havia ocorrido quando da constatação dos vícios nos requisitos de habilitação técnica, ele entendeu não haver “reparos” na decisão anulatória adotada pela prefeita. De outro tanto, acrescentou o relator, assistiria razão à autora da representação no tocante à supressão do prazo recursal em face da decisão de anulação. Ele concordou ainda com a posição da unidade técnica no sentido de que, tomando por base a ausência de encaminhamento específico na decisão anulatória e a ausência de menção na “ata da sessão realizada”, o órgão municipal deixara de assegurar aos interessados o direito de interpor recurso contra a decisão de anulação do certame, em desrespeito ao disposto no art. 71, § 3º, c/c o art. 165, inciso I, alínea d, da Lei 14.133/2021, bem como ao “precedente a que se refere o Acórdão 2.446/2025-Plenário”. Em outras palavras, arrematou o relator, ainda que legítima a anulação do certame, tal circunstância “não afasta o dever de observância das garantias procedimentais dos licitantes”, em especial o direito ao contraditório recursal. Ao final, o relator propôs, e o Plenário decidiu, considerar parcialmente procedente a representação, sem prejuízo de, entre outras providências, cientificar a Prefeitura Municipal de Piritiba/BA sobre a seguinte falha identificada na Concorrência Eletrônica 1/2026, com vistas à prevenção de outras ocorrências semelhantes: “ausência de concessão aos licitantes do direito de recorrerem em face da decisão de anulação da Concorrência Eletrônica 1/2026, em desacordo com o art. 71, § 3º, c/c art. 165, inciso I, alínea “d”, da Lei 14.133/2021 e em atenção ao Acórdão 2.446/2025-Plenário”.

Acórdão 1895/2026 Plenário, Representação, Relator Ministro-Substituto Augusto Sherman.

Caros pregoeiros e licitantes, a melhor fonte de conhecimento sobre licitações se chama TCU - Tribunal de Contas da União. Leiam atentamente os acórdãos do TCU, pois eles trazem ensinamentos e recomendações importantíssimos, e tenham a certeza de estarem realizando um grande serviço à sociedade.

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